Licença da minha licença... e ainda em Missão!
Eu "fugi" do ministério pra ser estudante... passei a ter (novamente) um ministério (também) estudantil....
Provavelmente você sabe que eu servi num ministério estudantil desde quando estava no fim do ensino fundamental com meu grupo de estudos bíblicos no Colégio Militar de Curitiba (CMC) até as fileiras universitárias quando integrei a delegação brasileira na Assembleia Mundial da Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos (IFES, na sigla em inglês) em 2015 no México.
E de 2015 no México pra cá, um monte de coisa aconteceu… Me vi assumido como homem Gay, fundei o Evangélicxs Pela Diversidade, me tornei biblista e especialista em hermenêutica e Novo Testamento, cheguei na ONU, fui ordenado reverendo, casei com o Guilherme, me tornei pastor de igreja local, mudei pra São Paulo (e continuei morando em Curitiba ao mesmo tempo) e mais um monte de coisas. Já faz 10 anos que sou publicamente assumido como um homem gay e atuo no ministério enfrentando o fundamentalismo religioso. Somando os anos de ministério estudantil, me dedico voluntariamente de maneira integral à vocação religiosa já tem 17 anos.
Por uma série de fatores, precisei tomar uma decisão que se tornou imperativa: me afastar do ministério e focar na minha carreira profissional e cuidados familiares. Aos 32 anos de idade, com menos de 2 anos de contribuição com INSS, sem nenhuma reserva financeira e inclusive dívidas pendentes (sem contar as questões de saúde pessoal e desafios familiares) precisei decidir cuidar dessa parte da minha vida, inclusive inspirado pela realidade de colegas de ministério e até familiares que dedicaram sua vida ao serviço religioso e hoje passam desafios na velhice por falta de sustento. Grande parte das minhas referências no ministério hoje são pessoas com mais de 60 anos que enfrentam fragilidade financeira, não tem acesso a serviços básicos de saúde e a comunidade que tornou essas pessoas referência à sua época e as instituições que legitimaram sua autoridade no passado, ou passaram por situações de vulnerabilização institucional, ou relegaram ao esquecimento essas pessoas sem oferecer a elas o mínimo.
Uma decisão que não quis tomar, mas que se tornou urgente por realidades das quais eu não tinha controle. E nesse quase um ano afastado oficialmente das atividades ministeriais, muitos desdobramentos entre a saída não planejanda e os momentos de “pedir licença da licença” para atuar com atividades diretamente ligadas ao ministério desembocam neste texto.
Se algo aconteceu em todo o 2025 e no 2026 até aqui, desde o anúncio da minha saída, foi encontrar pessoas que diziam estar em espaços onde meu nome foi falado: “O Bob desistiu do ministério” ou “o Bob 'FUGIU' da vocação”. Entre deistências e fugas, me encontrei em um 2025 com desafios para os quais não estava preparado e surpresas que não pedi que me encontrassem, e lamentei quando fui encontrado por elas.
¹ Depois que Jesus nasceu em Belém da Judéia, nos dias do rei Herodes, magos vindos do Oriente chegaram a Jerusalém
² e perguntaram: "Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo".
³ Quando o rei Herodes ouviu isso, ficou perturbado, e com ele toda a Jerusalém.
Mateus 2:1-3 (NVI)
O maior legado que recebi do ministério estudantil foi encarnar a Missão Integral e entender que não precisamos estar servindo em um espaço institucional com explícita orientação religiosa para dizer que fazemos parte da Missão de Deus. Ser um bom estudante de Mestrado é tão importante quanto servir a santa ceia (eucaristia) em um culto de páscoa. E desde que anunciei meu afastamento das atividades religiosas e comecei a me envolver com outros grupos e espaços mais do campo acadêmico em Relações Internacionais, tem sido uma experiência muito boa ver que não sinto divisão entre o que faço dentro do mundo religioso e fora dele.
A surpresa nisso tudo, talvez, tenha sido ver o quanto essa integralidade da Missio Dei e a integridade com que entendo a minha fé é também lida e percebida por quem me encontrou nesse caminho fora dos espaços religiosos institucionais.
Do que se pode tornar público, minha família enfrenta um enorme desafio de saúde e estamos mobilizados em muitos termos, inclusive financeiros, para dar conta de oferecer os cuidados necessários para que a gente fique bem na medida do possível. Essa coisa de "fugir" mexeu comigo em muitos sentidos. Lembro que no começo, quando as primeiras fofocas chegavam, eu ficava com muita raiva, porque não foi uma fuga. Não é como se eu tivesse, de maneira covarde, decidido que não mais serviria ao ministério, não mais ouviria as pessoas e as suas dores, não mais seria pastor e não mais estaria presente na luta das pessoas que comigo caminham, nem como se anunciasse ou simplesmente deixasse de atender, de receber, de escutar quem confia na vocação pastoral que recebi da parte de Cristo, confirmada por uma comunidade que testifica essa vocação no reconhecimento do sacerdócio que recebo.
⁴ Tendo reunido todos os chefes dos sacerdotes do povo e os mestres da lei, perguntou-lhes onde deveria nascer o Cristo.⁵ E eles responderam: "Em Belém da Judéia; pois assim escreveu o profeta:⁶ ‘Mas tu, Belém, da terra de Judá, de forma alguma és a menor entre as principais cidades de Judá; pois de ti virá o líder que, como pastor, conduzirá Israel, o meu povo’.Mateus 2:4-6
E também não é como se essa decisão (de me afastar do ministério) tivesse gerado alegria e paz no meu coração por tê-la tomado. Muito pelo contrário, as pessoas sabem — e inclusive muita gente assistiu ao vídeo no Instagram e comentou — o quanto o meu anúncio de afastamento do ministério tem um tom de tristeza, de luto e de sentimento de frustração, porque não foi uma decisão que eu quis tomar. Acho que a sensação de "fugir" me pareceu, nesse primeiro momento, como uma afronta aos meus princípios e valores e como um desrespeito ao amor que eu tenho por fazer o que eu faço e como eu faço.
Já num segundo momento, acho que eu fui tentando justificar essa "fuga", como se eu devesse a outras pessoas satisfação por ela. Então eu lembro de estar em conversas que, quando esse tema surgia, eu não parava de falar e explicar e justificar e contar das razões e dos motivos, inclusive me perceber sofrendo por ter que preservar os sigilos que são necessários, para que ninguém pensasse mal de mim. Já não era mais raiva, como no primeiro instante, mas sim medo. Como se houvesse algo da minha reputação a ser preservado e como se sair do ministério fosse parecer largar tudo e todos, e como se eu quisesse explicar que eu não só não larguei como, na verdade, desejo muito voltar, mas que o que impossibilita isso de acontecer agora são questões que não estão no meu controle.
E tudo isso aconteceu nesse segundo momento porque eu percebi que as pessoas também respondiam à altura, dizendo que não havia necessidade de eu justificar tanto assim e tantas vezes sobre essa decisão, principalmente porque todas as pessoas que caminham comigo e que estão perto da minha vivência sabem exatamente o que esta acontecendo e o porquê essa decisão é importante agora.
⁷ Então Herodes chamou os magos secretamente e informou-se com eles a respeito do tempo exato em que a estrela tinha aparecido.⁸ Enviou-os a Belém e disse: "Vão informar-se com exatidão sobre o menino. Logo que o encontrarem, avisem-me, para que eu também vá adorá-lo".⁹ Depois de ouvirem o rei, eles seguiram o seu caminho, e a estrela que tinham visto no Oriente foi adiante deles, até que finalmente parou sobre o lugar onde estava o menino.¹⁰ Quando tornaram a ver a estrela, encheram-se de júbilo.¹¹ Ao entrarem na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram. Então abriram os seus tesouros e lhe deram presentes: ouro, incenso e mirra.¹² E, tendo sido advertidos em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram a sua terra por outro caminho.Mateus 2:7-12
Acho que num terceiro momento, já mais envolvido com as dinâmicas do mestrado, com as muitas atividades para entregar e também com menos envolvimento com o campo do qual eu sempre fiz parte, percebi que essa sensação de saber que as pessoas achavam que eu estava "fugindo" me trazia, em alguma medida, segurança. Eu acho que me senti protegido por saber que as pessoas se sentiam autorizadas a dizer que eu "fugi" e que, "porque eu fugi, já que eu fugi", elas poderiam seguir suas vidas sem dependerem de diminuir o meu trabalho, as minhas atividades, ou de ficarem preocupadas com o que eu vou fazer ou falar diante de determinada situação.
Em termos práticos, foi como se eu ficasse feliz de saber que agora eu não receberia mais convites de pessoas que já não queriam me convidar, mas se sentiam na obrigação de fazê-lo simplesmente porque somos poucos, ou de saber que as pessoas fariam suas atividades sem me citar — porque quando faziam, faziam com um ar de desânimo, como se estivessem fazendo aquilo por mero protocolo formal e obrigatório.
E enquanto tudo isso aconteceu, foi no Mestrado que voltei a me sentir parte vibrante do que Deus está fazendo no mundo! E que sensação boa! É no mestrado que passei a ter almoços todas as quartas-feiras com 3 estudantes de graduação que pediram para semanalmente nos encontrarmos para falar sobre fé e espiritualidade. É na universidade também que tinho conversas profundas sobre a possibilidades de experiências no cristianismo com uma amiga da turma. É aqui no Campus Osasco que, caminhando pelos corredores na semana da calourada várias pessoas LGBTs me encontraram e gritatam o vocativo “Paaaastooor” pra me chamarem e me apresentar pra jovens de 18, 19 anos que ingressaram às fileiras da educação superior.
Ter vivido no mundo cristão e me debruçado em atuar nele com o tema das diversidades me fez tratar a reivindicação da possibilidade de integrar minha fé com tudo o que sou como uma pauta. E sair do mundo institucional cristão tem me curado ao perceber que essa falsa divisão e pretensa impossibilidade circunda mais esse mundo religioso do que a vida fora dele. Em que se pese as várias falas de pessoas LGBTI+ que insistem em dizer que "é impossível ser LGBTI+ e Cristão" e fazem coro com líderes fundamentalistas religiosos quando dizem que isso é incongruente, confesso que na maioria dos espaços que passei a frequentar sendo um "pastor gay" a notícia é recebida como novidade, boa notícia, interesse em saber.
É lógico que eu sei que é importante respeitar a história e, quando faço isso, não estou me colocando como inovador e revolucionário, até porque todo mundo sabe que muita gente surgiu antes de mim e precisou caminhar para que eu estivesse aqui, onde estou, fazendo o que eu faço. Mas o que eu quero dizer é que, em alguma medida, saber que nesse momento da história muitas pessoas do campo religioso/teológico se sentem tranquilas em não marcarem meu arroba, não falarem do meu nome nas suas lives, de não escreverem meu nome em seus textos, fez também com que eu sentisse que eu ia parar de precisar sempre acessar esses conteúdos para saber se a minha reputação estava em risco, se tinham falado alguma coisa com tom de deboche ou se talvez tinham intencionalmente negado alguma informação para que, embora meu nome tivesse sido citado e eu não que pudesse dizer 'não fui mencionado', as pessoas criassem frases e narrativas que nas suas entrelinhas diminuíam o que eu fazia.
Agora eu simplesmente não estou mais nessa cena e nesse espetáculo. Então, nesse momento, já envolvido com outras redes, acessando outras pessoas, sendo conhecido por outras instâncias e instituições, eu passei a perceber que "fuga", por muitas vezes, faz parte de uma estratégia e tecnologia de sobrevivência. O que eu quero dizer com isso é que "fugir", nesse meu caso e de tantos outros como os que nós vamos estudar aqui na Bíblia, significa a melhor decisão que se pode ter para que se continue com vida, segurança e saúde.
E é nesse momento que eu reflito sobre o Natal e sobre, principalmente, a fuga de José e Maria com Jesus Cristo recém nascido. Deus, o Verbo encarnado, em sua vinda ao mundo... como um bebê indefeso.
É nessa reflexão sobre esse casal de fugitivos que eu quero pensar sobre esse meu ano e sobre o que eu aprendi e o que eu descobri nessa alternativa de vida fugitiva, subalterna, irreverente, que desloca em diversas dimensões, principalmente geográficas, a experiência de quem tem afeto, carinho, mas que está inserido num contexto social e político aonde a violência e a opressão colocam esse afeto, esse carinho e esses corpos em situação de vulnerabilidade. Sim, a história de redenção da humanidade, começa com uma fuga! Jesus, o filho de Deus, que veio para salvar todo o mundo, que É e Está acima de toda a maldade e de todo o pecado... Ele fugiu!
Mesmo quando ainda estava no ventre de Maria, Jesus já é nascido de um processo de trânsito, de migração, José indo alistar em Belém de Judeia... Assim que o redentor nasce, por conta da enganação dos Reis-Magos, para que pudesse (sobre)viver, Jesus teve que fugir. José e Maria, que sabiam que era o Deus todo poderoso encarnado ali, decidiram fugir da violência e perseguição que estavam sofrendo naquele momento e naquela conjuntura política.
E essa reflexão é a reflexão sobre o Natal. A Esperança de Salvação, a redenção da humanide, começa com uma fuga!
¹³ Depois que partiram, um anjo do Senhor apareceu a José em sonho e disse-lhe: "Levante-se, tome o menino e sua mãe, e fuja para o Egito. Fique lá até que eu lhe diga, pois Herodes vai procurar o menino para matá-lo".¹⁴ Então ele se levantou, tomou o menino e sua mãe durante a noite, e partiu para o Egito,¹⁵ onde ficou até a morte de Herodes. E assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta: "Do Egito chamei o meu filho".Mateus 2:13-15
E talvez muita gente possa pensar que o motivo da fuga tenha sido saber que Jesus era filho de Deus, mas ao mesmo tempo a fuga também tinha a ver com o fato de que havia afeto, amor e uma dedicação em cuidar e de cuidado da parte de José e Maria para com Jesus. Até porque, se foi Deus quem chamou José e Maria para o convite dessa parentalidade, teria sido justo que o casal dissesse que é obrigação do próprio Deus oferecer as garantias de proteção e sobrevivência. Mas, na verdade, essa fuga com o bebé recém nascido acontece por amor! Por medo de perder aquele indefeso bebê cujo afeto parental de uma mãe que aceitou e dicidiu, por vontade própria, seguir com essa gestão e de um pai que em sua paternidade afetiva adota acima de qualquer vínculo sanguineo, que se constroi essa família e esse afeto.
Temos vivido tempos delicados como humanidade, difíceis como sociedade. Infelizmente, por mais que em alguns aspectos a conjuntura possa ter melhorado, pra muita gente o Natal é um momento ruim, com a tia homofóbica, o tio conservador, o primo que é preconceituoso... um natal de desafios em relações afetivas, familiares, entre outras redes que nos atravessam. Quais relacionaementos hoje te fazem sentir ameaçado nas dimensões da sua existência? De quem você fugiria se pudesse?
Neste texto, quero dizer pra você que tudo bem fugir, talvez você vai ter que fugir da discussão na ceia da sua família, talvez você vai ter que fazer cara de paisagem e abstração e fingir que não foi com você, talvez você vai ter que fugir de ficar sentado na Mesa com aquela tia chata e dar motivos... ou talvez mais radical ainda, vai ter que fugir... fugir mesmo! Talvez criar uma desculpa do trabalho, fingir que passou mal, porque você vai fugir de estar no ambiente que lhe é tóxico e que faz você se sentir ameaçado. Como quem pede uma licença para cuidados familiares e estudos para fazer Mestrado...
Quero dizer a você que está em uma situação de vulnerabilidade, ou pior, sofrendo violência, além da vulnerabilidade que já lhe é imposta: Fugir é o ato mais salvador e redentor que você pode ter com você! O ato de mais amor que você pode ter consigo e com os seus! Por isso fuja! Fuja mesmo! Não tenha vergonha nem medo de criar estratégias para fugir! Chame seus amigos, chame quem você ama... e fuja com Ele, o salvador da humanidade. Jesus está fugindo com você
¹⁶ Quando Herodes percebeu que havia sido enganado pelos magos, ficou furioso e ordenou que matassem todos os meninos de dois anos para baixo, em Belém e nas proximidades, de acordo com a informação que havia obtido dos magos.¹⁷ Então se cumpriu o que fora dito pelo profeta Jeremias:¹⁸ "Ouviu-se uma voz em Ramá, choro e grande lamentação; é Raquel que chora por seus filhos e recusa ser consolada, porque já não existem".Mateus 2:16-18
Quando isso acontecer, saiba que Deus vai colocar uma estrela para que as pessoas que devem te encontrar te encontrem. Você não ficará sozinho. Uma estrela guiará apenas quem deve te encontrar, para que essas pessoas driblem a noite e caminhem por desertos para que elas possam te dar presentes e celebrar a sua vida. Você merece estar com pessoas que celebrem sua vida, que te tragam presentes e dignifiquem quem você é. Por isso, se necessário, para que a vida aconteça, para que a luz (da estrela) brilhe e para que as pessoas (certas) possam tem encontrar, fuja!

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